As ligações clínicas e subclínicas da Neofobia Alimentar e Transtorno do Espectro Autista

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) – um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits na comunicação social e a presença de comportamentos restritos e repetitivos – tem sido associado a problemas relacionados à alimentação. Mesmo com a mudança das conceituações diagnósticas de TEA durante o intervalo de mais ou menos 70 anos, a seletividade alimentar ou a “dieta seletiva” se manteve altamente prevalente entre indivíduos com TEA, com relatos de até 90% de crianças exibindo esses comportamentos alimentares atípicos.

Um dos principais componentes da seletividade alimentar é a neofobia alimentar, a propensão a recusar-se a experimentar alimentos não familiares. Embora seja um aspecto normativo do desenvolvimento da primeira infância, quando a neofobia persiste além da infância tardia, um custo de dieta e nutricional é incorrido. A neofobia limita a variedade alimentar, com impactos particularmente adversos sobre o consumo de frutas e vegetais ricos em nutrientes, que em cascatas influenciam a saúde e o desenvolvimento em geral. Há evidências mistas sobre se a neofobia está associada ao IMC. Dados de estudos anteriores com animais sugerem que as crianças que são muito exigentes em ingerir alimentos mais densos em nutrientes e menos palatáveis ​​(por exemplo, frutas e legumes) correm mais risco de se tornarem com sobrepeso ou obesidade do que aquelas que têm uma dieta mais variada. Em conjunto, isso sugere que mais pesquisas são necessárias para elucidar a relação entre neofobia e IMC, particularmente entre crianças em idade escolar, para as quais a probabilidade de se tornarem com sobrepeso ou obesidade está se tornando cada vez mais comum.

A neofobia alimentar parece estar aumentada no TEA não apenas durante a infância, mas também durante a adolescência e a idade adulta jovem. A abordagem mais usada para explorar links entre neofobia e Transtorno do Espectro Autista é um projeto de controle de caso. No entanto, outra abordagem envolve examinar diferenças individuais nessas características comportamentais e suas relações entre si dentro de uma amostra representativa baseada na comunidade. Há ampla evidência para a dimensionalidade do comportamento autista, variando desde características subclínicas até a expressão clínica dos sintomas.

Assim, no presente estudo, não só foram comparados os grupos com TEA e controle em sua neofobia, mas também foram examinadas como diferenças individuais em traços autistas são preditivos de diferenças individuais em neofobia em uma amostra grande e representativa de crianças de base comunitária. Abordagens baseadas em características evitam vieses inerentes a amostras clínicas, incluindo o desvio das influências de condições frequentemente co-ocorrentes com TEA (por exemplo, ansiedade, depressão e distúrbios médicos, metabólicos e genéticos). Além disso, a maioria dos estudos de crianças com TEA usa amostras clínicas com possíveis preocupações sobre a representatividade da população em geral, o que pode influenciar os achados e a interpretação dos resultados.

OBJETIVOS DO ESTUDO

Os objetivos da presente investigação foram: 1) estabelecer se a neofobia alimentar está associada a traços autistas em uma grande amostra de base comunitária; 2) examinar se a neofobia alimentar é atípica em crianças com TEA em comparação com pares da mesma idade; e 3) investigar associações entre IMC e neofobia ou traços autistas separadamente, e também sua interação.

AMOSTRA

Os participantes do estudo foram uma grande amostra baseada na comunidade de 8 a 11 anos de idade (n = 4564), incluindo um grupo relativamente pequeno de crianças diagnosticadas com TEA (n = 37). Os pais dessas crianças de 8 a 11 anos completaram avaliações sobre neofobia alimentar e traços autistas e forneceram métricas de altura e peso aos 12 anos de idade.

RESULTADOS

Crianças com TEA foram classificadas como mais neofóbicas do que seus pares não-TEA (2,67 ± 0,83 em comparação com 2,22 ± 0,73; P <0,001), e houve associações subclínicas entre as características de neofobia e TEA (social, comunicação e restrita / comportamento repetitivo) nesta amostra comunitária de crianças (P <0,05). Além disso, enquanto a neofobia sozinha previu menor IMC, a interação dos traços de neofobia e TEA previa um IMC mais alto (P ≤ 0,01), sugerindo que as características elevadas de TEA em combinação com neofobia exercem influências opostas no peso em comparação com a neofobia sozinha.

CONCLUSÕES

De acordo com os dados coletados e analisados, esses achados implicam conexões clínicas e subclínicas entre os traços de TEA e comportamentos alimentares que podem afetar os resultados de saúde e, portanto, devem ser mais explorados em estudos futuros de etiologia compartilhada e estratégia de intervenção.

Autism spectrum disorder and food neophobia: clinical and subclinical links

Gregory L Wallace Clare Llewellyn Alison Fildes Angelica Ronald

The American Journal of Clinical Nutrition, Volume 108, Issue 4, 1 October 2018, Pages 701–707

Confira o estudo completo em https://doi.org/10.1093/ajcn/nqy163