Contribuição no controle da epidemia do Diabetes Mellitus Tipo 2 entre os Xavantes

Contribuição no controle da epidemia do Diabetes Mellitus Tipo 2 entre os Xavantes

Os riscos dos desreguladores endócrinos para a saúde dos Xavantes

Os Desreguladores Endócrinos (DE) são produtos químicos que em doses relevantes no meio ambiente podem alterar o metabolismo ou atividade hormonal por possuírem propriedades estrogênicas (femininas), antiestrogênicas, antiandrogênicas (antimasculinas), antitiroideanas, obesógenas e outras3,4,5,6,8,9,12,13,14,17,18,20,21,24,25.

Os pesticidas organofosforados, como o herbicida glifosato, usado nas plantações de soja, seriam responsáveis por uma maior ocorrência de cânceres e malformações17,20.

Pesticidas glicosatos, DE, encontrados em lagoas do Estado da Flórida (Estados Unidos) foram provavelmente os responsáveis, pela sua composição semelhante ao hormônio estrogênico, identificação de  pênis pequenos dos répteis crocodilianos aligatorídeos,  chegando a comprometer a procriação. Ele também foi incriminado como responsável pelo surgimento de peixes hermafroditas (sexos não bem diferenciados) sem possibilidade de procriarem.

Enquanto os países da União Europeia permitem até 0,1 ug do agrotóxico glifosato por litro de água; o Brasil, por sua vez,  permite 500 ug, ou seja, 5mil vezes a mais.

(http://www.redebrasilatual.com.br/saude/2017/11/no-brasil-umcontinente-de-monocultura-banhada-em-agrotoxicos).

Os pesticidas organofosforados malathion e parathion, e outros pesticidas como triadimefon, trifluralin, benomyl, vinclozolin, maneb, mancozeb, ziram, dicofol, endosulfan, carbaryl, methomyl, aldicarb, iprodione, são considerados desreguladores endócrinos (DE)(20).

Os pesticidas organoclorados mostram sólida associação com o aumento da prevalência do diabetes mellitus tipo 2 (DM2)12.

O produto químico 2,5 dichlorophenol, é um metabolito proveniente do 1,4 – dichlorobenzeno, sendo largamente usado como pesticida e como desodorante, presente também na naftalina (mothballs)9.

O 2,5 dichlorophenol, usado como pesticida, é um produto fenólico DE, prejudicial à saúde. Ele é encontrado na urina de crianças e adolescentes expostos a esse pesticida, estando associado com o maior índice de peso corporal (proporção entre peso e estatura), maior circunferência da cintura e maior probabilidade de obesidade5,9,21.

O produto químico fenólico triclosan, DE, também está associado positivamente com excesso de peso9.

Os metais pesados provenientes da mineração, como o ferro, o cobre, o cromo e o níquel, lançados pela Usina Onça-Puma de Níquel da Companhia VALE, no Estado do Pará, em níveis acima do permitido pelo CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente) no rio Cateté, na Terra Indígena Cateté dos índios Xikrin (Djore, Putkarot), também são DE relacionados com o surgimento de cânceres e de várias outras enfermidades2,14,22,26,27.

No Congresso Brasileiro de Águas Subterrâneas, em 2004, pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso e EMBRAPA apontaram contaminação das águas nos fundos dos poços tubulares, semiartesianos, de 12 a 70 metros, pelos agrotóxicos no município de Primavera do Leste (Estado do Mato Grosso), próximo da terra indígena Sangradouro – Volta Grande dos Xavantes (Folha de S. Paulo, 5/6/2005).

Em Lucas do Rio Verde, município do Estado do Mato Grosso, com plantações extensas de soja, os agrotóxicos também estavam presentes em nível elevado entre as mulheres. Isso é muito preocupante, pois durante o período de desenvolvimento fetal há uma maior vulnerabilidade aos agrotóxicos DE12.

Os pesticidas DE aplicados na agricultura em doses relevantes possuem propriedades estrogênicas, antiestrogênicas, antiandrogênicas, antitireoideanas6,12, estando associados ao desenvolvimento de cânceres3,13,17,18, infertilidade13, problemas na reprodução12 com comprometimento do sêmen13, malformações fetais na gestação, especialmente defeitos do tubo neural como anencefalia e espina bífida20,4,17,24, abortos4,24, doenças da tireóide12,14, comprometimento do sistema nervoso central e periférica 3,17,20, aumento da gordura corporal5,9,21,25 , imunodepressão24, obesidade5,9,12,14,21, ,  DM212,14, puberdade precoce14 e  doença de Parkinson19, entre outros.

Deve-se ressaltar que a mortalidade das crianças Xavantes é preocupante, ultrapassando taxas de áreas do Nordeste brasileiro socioeconomicamente comprometidas, tendo sido 5,5 vezes maior que a média nacional em 2004 (Folha de S. Paulo, 6/3/2005, página A16).

As terras indígenas de Sangradouro-Volta Grande e São Marcos, no Estado do Mato Grosso, estão rodeadas e envolvidas pela aplicação intensiva do agrotóxico glifosato, herbicida usado intensivamente por via aérea11,23 e terrestre.

Na terra indígena Sangradouro-Volta Grande dos Xavantes, os organofosforados e demais pesticidas, herbicidas, fungicidas, deveriam ser dosados na urina de crianças e nas águas dos poços semiartesianos. Esta pesquisa ativa dos agrotóxicos seria afirmativa ou negativa do comprometimento da água e do solo.

Pelo deslocamento das pulverizações aéreas pelo vento e chuva às distâncias consideráveis11,23, as dosagens seriam preventivas das complicações ocasionadas pelos agrotóxicos3,4,12,13,14,17,18,24, possibilitando que ações fossem tomadas antes que fossem observadas mais consequências irreversíveis.

Também se deveria analisar quanto à presença de pesticidas, inseticidas, herbicidas, fungicidas, possíveis DE6,12, usados nas grandes lavouras vizinhas das terras indígenas, em particular Sangradouro-Volta Grande, uma vez que podem estar contribuindo como substâncias obesógenas no meio ambiente com o aumento preocupante e epidêmico da obesidade e DM2 entre os Xavantes5,7,9,14,21.

Não se deve deixar de mencionar os fatores etiológicos principais, incontestáveis, da obesidade e do DM2 em nível epidêmico entre os Xavantes: 1) alimentos hipercalóricos com açúcares de absorção rápida e gorduras saturadas, presentes na dieta  ocidental em grande quantidade;  e 2) sedentarismo ou diminuição da prática de  atividade física em população propensa1,7.

As populações indígenas possuem predisposição genética ao aumento do peso, obesidade e DM2. Devem ser protegidas com manutenção da dieta tradicional, uma das três dietas melhores do mundo, com incentivos às roças tradicionais e orgânicas livres dos agrotóxicos. As cestas básicas com quilos de açúcares e as merendas escolares com açúcares deveriam ser revistas pelo governo, pois são prejudiciais aos índios com grande vulnerabilidade à obesidade e DM2, com gene favorecedor, encontrado somente entre populações indígenas do continente americano1.

O bisphenol A (BPA) é um produto químico usado na fabricação dos plásticos, estando presente nos pacotes plásticos de alimentos, sendo também considerado um DE9,12.

O BPA está associado ao aumento da gordura corporal12,16, pela alteração dos hormônios tiroideanos15, possuindo propriedades estrogênicas (femininas) e antiandrogênicas8.

As populações indígenas não devem deixar as embalagens de plásticos abandonadas nas aldeias e nas suas terras, nos locais de roças, caça e pesca, pois com as chuvas irão para os cursos d’água, contaminando-os com o BPAl. Os animais também são contaminados pelo BPAl dos plásticos e agrotóxicos. Os plásticos não devem entrar em contato com o calor, devendo ser recolhidos e não queimados, pois liberam toxinas quando aquecidos.

As populações indígenas brasileiras Xavante, Nambikwara, Pareci, Umutina, Irantxe e Guarani Kaiowá, rodeadas pelas grandes plantações de soja, algodão e outros cereais, submetidas às pulverizações intensas com agrotóxicos, devem ter a garantia do governo de que a saúde não seja comprometida.

Pesquisas da presença dos agrotóxicos na água e no solo das terras indígenas, na urina e sangue dos índios devem ser realizadas para uma possível comprovação afirmativa. A prevenção da exposição à DE e à toxidade dos pesticidas de grandes lavouras vizinhas e populações indígenas não pode ser esquecida.

Agricultores descendentes de japoneses do município de Lins, estado de São Paulo, investiram com sucesso na produção de legumes e hortaliças, livres de agrotóxicos, lançados de aviões nas plantações vizinhas de cana-de-açúcar, valendo-se de estufas. (Globo Rural – Dezembro 2017).

As fazendas produtoras de soja, vários cereais, algodão, cana, deverão se adequar à sustentabilidade com proteção dos bens tão valiosos que são a água, a terra e a atmosfera, para garantia de vendas aos mercados compradores internacionais de consumidores exigentes, preocupados com as condições de produção. A China, grande compradora de soja, está observando em sua população o aumento do peso corporal e suas consequentes doenças (50 milhões de doentes) e DM2 (mais de 90 milhões de diabéticos em sua população28, 5, 9, 12, 14, 21).

Grandes empresas, como AMBEV, Faber-Castell e McDonald’s, iniciaram um trabalho de conservação de bacias hidrográficas e proteção de mananciais (Globo Rural – Dezembro 2017), adequando-se às necessidades de sustentabilidade, que refletirão na produção e consumo por um mercado consumidor mais exigente.

A grande empresa suíça Nestlé, com consumo internacional de sua produção alimentar, preocupada com o consumo mundial cada vez mais exigente, investe na produção do leite orgânico (Globo Rural Dezembro 2017).

Esperamos inovações proporcionadas pela EMBRAPA e cientistas na direção do controle biológico e da genética, que evitarão os agrotóxicos, DE, tão nocivos ao meio ambiente e à saúde. As inovações possibilitarão a continuidade da grande produção e lucro exportador da agricultura brasileira, sem resíduos e pesticidas, respeitando a sustentabilidade e a saúde da população indígena e brasileira.

 

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Estudo: Os desreguladores endócrinos: contribuição no controle da epidemia do diabetes mellitus tipo 2 entre os Xavantes

Autor: Dr. João Paulo Botelho Vieira Filho

Professor Adjunto da Escola Paulista de Medicina – UNIFESP

Preceptor Centro de Diabetes – UNIFESP

Consultor médico das Associações Awê-Uptabi, Xavante

 

Data: Dezembro 201