Doenças crônico-degenerativas nos Xavante

Doenças crônico-degenerativas nos Xavante

Por Prof. Dr. João Paulo Botelho Vieira Filho

HERDABILIDADE OU FATORES GENÉTICOS OU DE HERANÇA DESFAVORÁVEIS PARA DOENÇAS CRÔNICO-DEGENERATIVAS DA POPULAÇÃO XAVANTE, QUE SE MANIFESTAM COM MUDANÇAS ALIMENTARES E MENOR ATIVIDADE FÍSICA

Este é mais um artigo dirigido aos indígenas Xavante, educativo e com finalidade de advertência com base na pesquisa médica, respondendo ao interesse e vontade dos índios em saber sobre os resultados encontrados.

Os índios devem manter a dieta alimentar tradicional e atividade física, diante da Herdabilidade ou herança indígena populacional para a obesidade, o diabetes mellitus e os acidentes cardiovasculares, quando modificam o estilo de vida para os alimentos da dieta industrial e diminuem a atividade física.

As populações indígenas brasileiras necessitam de terras tradicionais ou daquelas que habitam para poderem sobreviver com dieta tradicional e exercício.

As populações indígenas do continente americano possuem constituição física adaptada durante milênios para terem força e armazenamento de energia com os alimentos que selecionaram e desenvolveram, à atividade física de caça e pesca. Essa força e bonita aparência de seus corpos foi sendo selecionada com os que se alimentavam com milho, batata doce, abóbora, farinha de mandioca, macaxeira, feijão, fava, cará, amendoim, mamão, palmitos e cocos, inúmeras frutas como abacaxi – cacau e outras, animais da caça e pesca, insetos e larvas de besouro, obtidos com grande atividade física diariamente.

A Herdabilidade ou herança de fatores genéticos da população Xavante das Terras Indígenas de Sangradouro e São Marcos (955 índios), pesquizada na tese de Doutorado de Marcia Costa dos Santos, com orientação de Regina Santiago Moisés e Alexandre Pereira, colaboração de João Paulo Botelho Vieira Filho e Laércio Joel Franco, mostrou-se presente no aumento do tecido gorduroso com grande risco de doenças cardiovasculares após o aumento da gordura corporal e do peso, secundário às mudanças para a dieta industrial ou dos civilizados ocidentais e diminuição da atividade física. A obesidade, o diabetes mellitus, a síndrome metabólica (aumento da circunferência do abdômen, aumento dos triglicérides e da pressão arterial) tornaram-se epidemia (muitíssimos casos), devidos aos alimentos com hidratos de carbono de absorção rápida ou sacarose ou com açúcar e gordura animal da indústria, os refrigerantes, as bebidas alcoólicas e o abandono da atividade física diária.

Os brancos descendentes de europeus são mais resistentes ao açúcar (sacarose), pois fazem uso há mais de 2.000 anos, sendo descendentes daqueles que não morreram por maior tolerância.

Os brancos são resistentes ao álcool, pois são descendentes daqueles que melhor eliminavam pelo fígado e não morreram nos invernos rigorosos da Europa.

Os índios são intolerantes ao açúcar de absorção rápida (sacarose), engordam muito, ficando obesos e diabéticos.

Os índios não metabolizam o álcool como os brancos, sendo muito sensíveis e com maior comprometimento do fígado, pâncreas, coração e cérebro.

Os índios engordam muito com o açúcar comum (sacarose) e a gordura dos alimentos industrializados, com os refrigerantes e as bebidas alcoólicas, passando a apresentar maior risco com maior gravidade da obesidade, do diabetes mellitus, das doenças cardiovasculares como infartos, derrames e mortes súbitas.

A Herdabilidade, mostrada na tese de Doutorado de Marcia Costa dos Santos, dos Xavante para traços relacionados com gordura corporal ou adiposidade foi alta para a circunferência do quadril, intermediária para o peso do corpo, da gordura total do corpo e circunferência da cintura. A Herdabilidade ou presença de herança para glicose ou açúcar no sangue foi menor que a da adiposidade.

Esses traços de adiposidade ou gordura corporal prejudicial para a saúde e a glicose ou açúcar no sangue, devem-se à herança genética herdada dos pais, avós e ascendentes, continuando com os filhos, netos e descendentes como ocorre com a população mestiça mexicana, quando mudam a dieta tradicional para a industrial e diminuem atividade física, aumentam o peso corpóreo e a circunferência da cintura ou abdômen.

No trabalho de Doutorado de Marcia Costa dos Santos entre os Xavante que modificaram a dieta tradicional e diminuíram atividade física (as mulheres não mais indo às roças e recebendo botijões de gás e com televisões acesas durante o dia), foi constatada alta Herdabilidade para o colesterol total (gordura no sangue), frações que comprometem a obstrução das artérias como LDL, triglicérides, ainda apolipo proteína B. Todas essas gorduras no sangue quando mudam a dieta para açúcar e gorduras (mesmo frituras), são prejudiciais levando aos acidentes vasculares cerebrais (derrames) e infartos do coração, mortes súbitas.

Todas essas alterações genéticas ou de herança indígena coletiva, tão prejudiciais aos índios, manifestam-se com o abandono da dieta tradicional e passagem para a dieta industrial com muitas calorias do açúcar, refrigerantes, bebidas alcoólicas, gorduras (manteiga, cremosos, frituras), levando às doenças crônico-degenerativas como obesidade, diabetes mellitus e doenças cardiovasculares.

Esses resultados da Herdabilidade dos Xavante de Sangradouro e São Marcos que indicam variação dos fatores genéticos ou de herança dos genes da população, podem talvez ser estendidos às outras populações indígenas, pois os índios possuem menor diferenciação genética ou de herança, quando comparados com outras populações como as brancas ou caucasoides e as negras ou negroides.

Observa-se que inúmeras tribos de índios brasileiros mostram obesidade ou aumento do peso corpóreo e da circunferência do abdômen, quando entram na dieta industrial e diminuem atividade física (carros, motos, compra de alimentos industrializados). O risco cardiovascular dos infartos do coração e dos acidentes cerebrais (derrames), acompanha o aumento do peso e do abdômen.

Os índios dos Estados Unidos da América do Norte apresentam muita obesidade e muito diabetes em nível epidêmico, muitos acidentes cardiovasculares, muitas amputações, muitas neuropatias (falta de sensibilidade), muitas insuficiências renais em períodos curtos quando comparados com os brancos necessitando de diálise, perdas de visão, porque foram removidos de suas terras muito férteis e ricas em caça de búfalos para áreas semi-desérticas ou áridas, mudando ou não podendo manter a dieta tradicional e o exercício físico das caçadas.

Os índios da Bolívia e Peru mantiveram suas dietas de muitas variedades de batatas e tubérculos, cereais ou grãos como o milho, quinoa e outros, grande atividade física de subir montanhas, não tendo sido vítimas da obesidade, do diabetes e moléstias cardiovasculares em níveis epidêmicos. A Herdabilidade genética ou de herança indígena não se manifestou ou não se apresentou pois não houve mudança alimentar e de exercício entre os índios da Cordilheira dos Andes (Bolívia, Peru, Equador).

João Paulo Botelho Vieira Filho

Professor Adjunto da Escola Paulista de Medicina – UNIFESP

Preceptor Centro de Diabetes – UNIFESP

Consultor médico Associações Indígenas Porekrô,

Kakarekré, Baypran, Apyterewa, Auwé Uptabi

Maio 2017

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