Considerações sobre a viagem aos Parakanã Apyterewa, índios Avaeté do Rio Xingu à Secretaria Especial de Saúde Indígena

Considerações sobre a viagem aos Parakanã Apyterewa, índios Avaeté do Rio Xingu à Secretaria Especial de Saúde Indígena

Venho agradecer a gentileza e atenção recebida do senhor Renato Rodrigues da Silva, Administrador da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) de Altamira, Estado Pará, aos técnicos de enfermagem das aldeias Parakanã Apyterewa Raio do Sol, Paranapiona, Xingu, Apyterewa, aos índios que a todo momento desde a chegada perguntavam-me quando voltaria, ao piloto da voadeira Chico Paca.

Agradeço o convívio tão próximo com a comunidade Parakanã, suas lideranças Kaworeo, Xikoa, Axia, Tatoaroa, meu Ji- Pajé Uareuma, Kororoa e Kokoa, Pinima, Sapo, Jabú.

 

Histórico

Tenho grande estima pelos Parakanã que os conheci na década de 1980 do contato e quando era consultor-assessor do Banco Mundial e Companhia Vale do Rio Doce, enquanto havia verba do Banco Mundial para os índios da área de influência da Estrada de Ferro –  Projeto Carajás.

Na época os Parakanã foram deslocados pela FUNAI dos contrafortes da Serra de Carajás para o rio Bom Jardim, próximo do Rio Xingu, passavam fome pela falta de roças e alimentos. Pedi à VALE o fornecimento de farinha de mandioca enquanto não possuíam roças, que foi mantido por mais de 5 anos. Doei um barco maior e um menor para reforço alimentar da pesca, a pedido de Luis Moreira da FUNAI.

 

OBSERVAÇÕES:

Urubus

Notei um aumento considerável de urubus nas aldeias Parakanã, sobretudo nas aldeias Paranapiona e Xingu, em que essas aves abutres estão presentes no solo do amanhecer ao entardecer de todos os dias, próximas das casas dos índios e dos Postos de Saúde das aldeias Paranapiona e Xingu sobretudo, em grande número alimentando-se de restos de caça abundante e outros restos alimentares. Observei fato raro que nunca havia visto, um urubu macho em cima de uma fêmea fertilizando-a no solo.

Acredito que esse número excessivo de urubus nas aldeias Parakanã, transmissores pelos seus excrementos durante tão longas permanências em frente das casas das aldeias no solo, de micoses sistêmicas como histoplasmoses e criptococoses, Escherichia coli, salmoneloses, poderá ser contornada com uma limpeza diária de restos alimentares sobretudo da caça abundante (porcões, caititus, antas), pela colaboração dos técnicos de enfermagem, Aisans (Agentes Indígenas de Saneamento), AIS (Agentes Indígenas de Saúde) e índios explicando-lhes o risco de infecções graves dos pulmões, intestinos e demais órgãos. Esta observação é epidemiológica e médica, contribuindo para o saneamento das aldeias, podendo ser transmitida aos índios como orientação minha, desejando ter menos proximidade com os urubus na próxima viagem que tanto me pediram.

 

Bovinos

Outra observação é a presença de bovinos soltos dentro da aldeia Xingu e no campo de aviação da aldeia Apyterewa, com fezes espalhadas nesses locais. Os Parakanã receberam esse gado, já bem reduzido atualmente, como compensação da venda de madeira apreendida dos madeireiros invasores no passado, uma compensação prejudicial pela falta de vacinas e trato adequado.

O gado é transmissor da tuberculose bovina, da brucelose (infecção sistêmica grave) com infecção dos epidídimos e testículos (orquites), leptospirose com hepatite e insuficiência renal pelas leptospiroses.

Observei um homem (Akwara) com dor no testículo desde o ano passado, que deve ser tratado com os antibióticos doxiciclina (200mg ao dia) e rifampicina (600mg ao dia) durante 6 semanas.

As fezes do gado são transmissoras também da Escherichia coli  responsável por diarreias e infecções graves. A diarreia é frequente entre as crianças Parakanã. São transmissoras também da Taenia saginata.

Uma Parakanã jovem, viúva de Karamoa, elimina proglotes de Taenia possivelmente saginata, que deve ser tratada com mebendazol 200mg duas vezes ao dia por 3 dias ou albendazol 400mg ao dia por 3 dias.

 

Doenças

Na aldeia Xaitatá sem técnico de enfermagem diagnostiquei Moxiá, Parakanã dançarino notável do ritual Uruboa no ano de 2015, com sintomatologia acentuada da Moléstia de Parkinson, tremores do lado direito do corpo com idade não avançada em torno de 60 anos, que deve receber medicação neurológica de carbidopa-levodopa ou similar e acompanhamento de neurologista.

Mokoa apresentou quadro psicótico, que regrediu após medicá-lo.

Aratoa, 11 anos, convulsivo em tratamento com carbamazepina

Tewipé, Akowajira, Paxiga necessitando cirurgia catarata.

Hiratera obesidade mórbida com 120kg.

Xioma, Koxatoa, Tatoaroa, Jabu, Kokoa , Kororoa, gordura visceral, pré-diabetes.

Ikoreria, Potywa, Joraroa, Myriana, Luké, RX pulmões e exame de escarro para TB.

Pioma convulsiva em tratamento com fenobarbital.

Paraga osteomielite pé direito.

Atotina doença do refluxo gástrico.

Apetonga hipertensão arterial.

Xigaré nódulo mamário, suspenso depo provera, mamografia.

Takoia psicopatia em tratamento.

Ivituava, Xoxaroa, Pinia, Kuaxixiga, Wataxira, Tamaotava necessitando exame ginecológico e colposcopia.

Xamara reumatismo infeccioso, receitado benzetacil.

Tauena, 1 ano, suspeito de cisto ou papilomavírus vaginal.

Papilomavírus prevalente com falecimentos pelo adenocarcinoma invasivo, Apeava, Maiava, Areá, Kujapuruva, Wakaima, Pujua.

 

A viagem transcorreu de voadeira em muitas horas pelas distâncias, dentro das providências tomadas pelo senhor Administrador da SESAI de Altamira, Renato Rodrigues da Silva, pelo que lhe fico grato. Faltou combustível para a voadeira retornar de S. Felix do Xingu para a aldeia Parakanã Xingu, que forneci a pedido de Kororoa.

Os Parakanã proporcionaram-me duas tardes e duas noites com cantos belíssimos e aparelhos de sopro taquara com sons belíssimos do ritual Taboca. Prometeram-me cantos e danças do ritual Uruboa para o próximo ano.

 

Dr. João Paulo Botelho Vieira Filho

Professor Adjunto Disciplina de Endocrinologia da Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP)

Abril/2017.

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